Quando aprendemos as cores da bandeira, ficamos sabendo também que branco é a cor da paz. E lá fomos nós soltando pombas brancas para pedir essa paz. Também aprendemos da liturgia da Igreja que a pomba simboliza o Espírito Santo. E lá fomos nós desenhar a pomba nos afrescos dos templos e no altar da missa. Ali, ela simboliza o Espírito Santo, terceira pessoa do Deus uno e trino que aprendemos na catequese. Podemos até não entender. E somos finitos para entender porque a fé nos diz que é mistério. Conta a tradição que santo Agostinho tentava entendê-lo, meditando à beira do Nilo. Aí encontrou um menino botando gotas do rio num buraquinho que cavara na areia. – Que fazes menino, perguntou o bispo. – Vou botar o rio aqui dentro. – Não vês que não dá? Aí o misterioso menino redargüiu que era o mesmo que botar o mistério do Deus uno e trino na cabeça do bispo que meditava. E sumiu.
Só que não de catecismo e nem de religião que quero tratar. Duas coisas me chamaram atenção, nesta semana que passou. A pomba de Dom Eugênio e a lição do morador de rua de São Paulo que devolveu um saco de dinheiro que achou.
Neste tempo em que é corriqueiro matar por dinheiro, um pobre diabo sem lenço nem documento, sem dinheiro, teto nem pão, deu aula que o mundo tem que aprender. Devolveu o saco de dinheiro que achou na rua. Como tem eleições por perto, quem sabe, o mendigo quis ensinar como tratar o dinheiro público. Aprendera a lição da mãe: o que é do outro, é do outro. Simples. Nem precisou ler códigos ou cursar universidade para aprender. Nem decorar os dez mandamentos. A lição estava inscrita n´alma.
A outra coisa que chamou a atenção, foi a pomba branca que a Cruz Vermelha soltou para Dom Eugênio Sales. Queria enaltecer sua luta em favor da paz. O pássaro não quis revoou como esperavam. Parecia recusar qualquer demonstração de alegria. Como se também estivesse enlutado, pousou em cima do caixão. Ficou ali contrito como a chorar a morte do pastor. E do esquife só arredou quando Dom Eugênio baixou à sepultura.
Isso pode significar pouco para alguém e nada para outro. Mas pode ter sido tudo. Tem que tirar lições. Envolver a vida nessa prédica silente.
(Eliseu Auth é Promotor de Justiça inativo, atualmente Advogado militante).