Política e Opinião Umuarama, Quinta-feira, 04 de Maio de 2000

Charge

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A verdade prevalecerá
Pedro Celso

Recentemente, Antônio Ferreira César, membro fundador da chamada ‘‘Cooperativa de Educadores’’, fez-me acusações inteiramente falsas, difamatórias, injuriosas e caluniosas a respeito de minha gestão na Secretaria do Trabalho durante o Governo Democrático e Popular. Tais acusações foram publicadas pelo Correio Braziliense no dia 8 de abril, no curso das investigações sobre a malversação de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) por parte do secretário Wigberto Tartuce. Investigações que, aliás, resultaram no afastamento de Vigão. Notoriamente ligado à professora Eurides Brito, secretária da Educação, o próprio Ferreira César já demonstrou não ser pessoa séria: numa fita de vídeo divulgada durante o depoimento do ex-secretário Vigão, na Câmara dos Deputados, negou tudo o que havia dito ao Correio e, em audiência na Câmara Legislativa, disse que estava bêbado quando deu a entrevista ao jornal.

Lamentavelmente, o Correio Braziliense, antes de publicar a entrevista, não me deu oportunidade de apresentar provas documentais que desmontariam as afirmações desse elemento. Se assim houvesse procedido, teria informado aos leitores que, durante a minha gestão, a Secretaria do Trabalho jamais firmou contrato com a cooperativa de Ferreira César (fundada apenas no dia 28 de outubro de 1998, no final do governo Cristovam) para ministrar cursos de qualificação profissional com financiamento do FAT, ou a qualquer título, ou sob qualquer outra rubrica orçamentária.

Para que a verdade prevaleça, ingressei na Justiça com queixa-crime e ação de indenização por danos morais contra Antônio Ferreira César. Estou convencido de que motivos políticos menores o levaram a me acusar dessa maneira caluniosa, numa tentativa torpe de equiparar a administração do Partido dos Trabalhadores à gestão do PMDB, essa, sim, eivada de falcatruas.

‘‘Quem não deve não teme’’, diz o ditado popular. Com a consciência tranqüila e cioso de meus deveres políticos, sindicais, partidários e de cidadão, encaminhei ao Ministério Público autorização para que sejam quebrados os meus sigilos bancário, fiscal e telefônico. Minha mulher e meus mais próximos auxiliares à época da minha gestão na Secretaria do Trabalho tomaram a mesma decisão. São medidas destinadas a facilitar quaisquer investigações pertinentes por parte da Justiça sobre a minha administração. À imprensa, ofereci cópia de uma série de documentos referentes à minha gestão, entre os quais a lista das entidades que participaram do Projeto Saber, financiado pelo FAT, e as auditorias que o Ministério do Trabalho mandou realizar para avaliar a aplicação dos recursos do FAT, considerando-a correta e conforme à lei. Todos esses documentos estão à disposição de quaisquer interessados em meu gabinete na Câmara dos Deputados.

Entendo que os recursos do FAT constituem um patrimônio dos trabalhadores brasileiros e, por isso, estou empenhado na luta pela instalação de comissões parlamentares de inquérito do FAT — na Câmara dos Deputados e na Câmara Legislativa — com o objetivo de apurar as denúncias de desvios de recursos desse fundo, tanto no Distrito Federal como nos estados da Federação. Aliás, desde meados do ano passado tenho solicitado ao Ministério do Trabalho que investigue as denúncias de desvios de verbas do FAT, por exemplo as que envolvem a Fundação Teotônio Vilella. E é com satisfação que tomei conhecimento das medidas que o ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, resolveu adotar para ampliar e melhorar a fiscalização da aplicação dos recursos do FAT, acatando algumas das sugestões que apresentei a ele, na audiência pública realizada na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados.

Convencido de estar cumprindo os meus deveres de cidadão e de político vinculado aos interesses populares, espero que a verdade venha mesmo a prevalecer.

Esse lamentável episódio me anima também a lutar contra a ‘‘presunção da culpabilidade’’ prevalecente no Brasil. O exemplo mais notório é o caso da Escola Modelo, de São Paulo, em que um casal foi criminosamente acusado de abuso sexual de crianças, acusação que se revelou falsa de toda falsidade. Em nosso país, ao contrário do que determina a Constituição, presume-se que as pessoas são culpadas até prova em contrário. Acusado sem fundamento e tendo a honra achincalhada por uma pessoa desqualificada, sou agora obrigado a fazer a prova da minha inocência. Faço-o, no entanto, com a convicção de que a transparência deve ser cultivada como um dos maiores valores do homem público.

Pedro Celso é deputado pelo PT do Distrito Federal

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A direita cubana
Gláucio Ary Dillon Soares

O seqüestro de Elián González por ‘‘parentes’’ que ele nunca vira, assim como o apoio por parte da população local que a ação obteve deixaram pasmos observadores mundo afora. Seqüestrar uma criança em nome de uma contra-ideologia era impensável. Não obstante, muitos fenômenos políticos que são absurdos mundo afora são aceitáveis em Miami. Inicialmente, muitos desconfiaram que a história fosse falsa.

Não era. Aconteceu mesmo e, para entendê-la, é necessário conhecer a direita cubana e sua relação com outros grupos latinos, e é preciso saber algo a respeito da cidade de Miami e do condado de Miami-Dade. Em primeiro lugar, os cubanos, particularmente os que vivem em Miami, não são representativos dos latinos que vivem nos Estados Unidos. Os latinos, aqui chamados de hispânicos, incluem muitos grupos étnicos, majoritariamente mexicanos e porto-riquenhos e seus descendentes. A maioria dos hispânicos é pobre e, tradicionalmente, prefere os Democratas, que têm menos preconceitos contra os imigrantes são mais favoráveis aos pobres do que os Republicanos. A excepcionalidade dos cubanos se revela no fato de que são o único grupo latino cuja maioria prefere os Republicanos. Todos os demais favorecem os Democratas por ampla maioria, mas menos de 20% dos cubanos de Miami o fazem. Até os cubanos que vivem em outras cidades são menos radicais (de direita).

O que explica a excepcionalidade? Por que os cubanos, particularmente os de Miami, são diferentes dos demais latinos? Em parte porque são relativamente mais ricos; em parte porque vieram de um regime comunista; em parte porque vivem numa cidade e num condado que controlam. Os três fatores pesam. Os nicaragüenses, em Miami, também são de direita. Vieram da elite que foi tirada do seu lugar privilegiado pelos sandinistas. E, entre os demais latinos, a grana também conta: quanto maior a renda pessoal, mais republicano o indivíduo.

Em contraste, a maioria dos migrantes de outros países latino-americanos veio para os Estados Unidos por motivos econômicos, ao passo que terceiros, particularmente guatemaltecos e salvadorenhos, vieram por perseguição política, mas levada a cabo por regimes militares de direita. A grande maioria dos latino-americanos vieram por questões econômicas e, embora tenham melhorado de vida, são pobres em relação à população americana branca. Os que vieram de regimes de esquerda, ricos ou pobres, são, com freqüência, da direita raivosa. Para a direita raivosa, tudo é secundário em relação à luta contra Castro, inclusive os valores familiares.

Não obstante, dizer que muitos cubanos são de direita é uma verdade incompleta. Há muitas direitas cubanas, desde a mais institucional, representada pela Cuban American Foundation, Fundação Cubano-Americana, que respeita a lei americana e é cortejada pelos dois partidos, até grupelhos militantes de anticastristas, de índole terrorista, como o Alfa, que não respeitam as leis americanas. Embora os americanos, naturais de um país muito conservador, vejam com simpatia o anticastrismo dos militantes cubanos, não vêm com simpatia a falta de respeito com que a direita cubana trata as leis e instituições americanas. Muitos membros da direita cubana não prosperaram num regime democrático, mas noutra ditadura, a de Batista. Na minha opinião, se esses grupos voltassem ao poder em Cuba, não teríamos a substituição de uma ditadura por uma democracia, mas de uma ditadura por outra.

Os observadores estrangeiros ficam impressionados com a virulência desses grupos, que ainda se consideram exilados, mesmo vivendo nos Estados Unidos há três ou quatro décadas. Não obstante, outros, mais pobres, que vieram depois, e alguns, que nasceram nos Estados Unidos, também são virulentos, mas isso só ocorre em Miami-Dade, onde o controle da economia e da política está, em boa parte, em mãos cubanas. O controle não se exerce sem conflito com os próprios americanos: o prefeito, Joe Carollo, um Cuban-American, se solidarizou com os seqüestradores pseudofamiliares de Elián. O chefe de Polícia, William O’Brien, cumpriu o seu dever constitucional e ajudou os agentes federais, controlando a violência posterior da direita cubana. O’Brien contou com o apoio do administrador da cidade, Warshaw, também americano.

O prefeito não tem autoridade legal para demitir o chefe de Polícia. Pressionou o administrador e não conseguiu demiti-lo. Demitiu, então, o administrador e forçou a renúncia do chefe de Polícia, que saiu apoiado pela força policial. Como diz, corajosamente, o professor Jim Corey, da Universidade de Miami, ‘‘[esses acontecimentos] fizeram de Miami a piada dos Estados Unidos. Confirmam a imagem de [que somos] uma república de banana’’. Conhecendo a direita cubana, é melhor que o professor Corey peça asilo político... em Cuba.

Há, em Miami-Dade, dois efeitos, o efeito-maioria e o efeito-controle, que não existem em outros lugares onde os cubanos estão presentes. Miami, mais de quatro décadas depois da subida de Castro ao poder, continua obcecada com Castro e com o comunismo. O clima é muito politizado, numa direção só: anticastrismo. Os cubanos de origem mais modesta, que vieram em outras ‘‘ondas’’, também participam do radicalismo. Em outros lugares, os cubanos pouco a pouco passaram a se comportar como as demais pessoas, sendo mais imigrantes do que exilados, vivendo a vida local, adotando as suas leis e os seus costumes, e não a vida da Cuba que deixaram.

As ações desses grupos tornaram Miami uma cidade difícil. Os demais grupos latinos se ressentem dos cubanos que dominam o condado política e economicamente. As relações dos cubanos com colombianos, dominicanos e haitianos, assim como com os negros americanos, não são fáceis. Elas são hostis. Miami é uma cidade tão radicalizada que algumas associações não querem mais realizar suas reuniões e simpósios lá. Na última reunião da Associação de Estudos Latino-Americanos, a Lasa, foram gastos 22 mil dólares adicionais para segurança extra, devido às ameaças da direita cubana contra todos os participantes. Tais ameaças levaram à proposta, por parte de muitos membros, de não realizar mais reuniões em Miami, por falta de segurança.

A direita cubana ameaçou gregos e troianos com ações terroristas devido à participação de pesquisadores e intelectuais vindos de Cuba. Não uso a expressão terrorismo de maneira irresponsável: tecnicamente a sua definição é ‘‘o uso de violência ou intimidação contra não-combatentes’’. Os brasileiros e outros latino-americanos e americanos que participamos da reunião da Lasa ficamos indignados com as ameaças a nós, feitas pelos terroristas cubanos, por participar de uma reunião acadêmica da qual participavam, também, professores e pesquisadores cubanos. É nesse contexto doente, freneticamente ideologizado, que o seqüestro de Elián González e o uso asquerosamente político de um menino de seis anos devem ser entendidos. A única coisa que essas ações conseguiram foi aumentar a exígua simpatia que ainda existe por um regime historicamente falido.

Gláucio Ary Dillon Soares, sociólogo, é professor das universidades de Brasília e da Flórida
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