Política e Opinião Umuarama, Quinta-feira, 19 de Agosto de 1999

Charge

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E as reformas?

Antônio Ermírio de Moraes

Estamos quase no final do ano, e o Congresso Nacional ainda não realizou as benditas reformas constitucionais. A última notícia é que os parlamentares decidiram adiar a discussão da reforma tributária.

Enquanto isso o Brasil continua derrapando. O rombo da Previdência aumenta de hora em hora. Os calotes dos estados se sucedem num inaceitável ambiente de salve-se quem puder. A informalidade explode e quebra lojas tradicionais. A inflação ameaça escalar. Os movimentos sociais rearticulam-se. As greves prometem parar caminhões novamente ­ e até metalúrgicas e montadoras de automóveis. E o tecido social vai se dilacerando a céu aberto, marcado por escândalos de corrupção e crimes violentos que se espalham de norte a sul do país.

Já ouvi de muitos parlamentares a versão de que o Congresso Nacional nunca negou sua colaboração ao Poder Executivo. Argumentam que o governo não lidera as reformas e que, por isso, as mudanças não ocorrem.

Por outro lado, ouço dos governantes que eles não podem contar com o Congresso Nacional para aprovar, com devida presteza, as reformas que podem ajudar a reduzir a pobreza e acabar com a miséria. Na última semana, o presidente da República decidiu recuar em relação à reforma da Previdência Social por temer falta de apoio político no Congresso Nacional.

É um jogo de empurra-empurra. Não sei quem está com a razão. Mas uma coisa é certa: o grande sofredor desse impasse é o povo brasileiro, os milhões de chefes de família que não conseguem se empregar, a avassaladora massa de jovens que não sabem o que fazer com o diploma que conquistaram nas faculdades, as intermináveis filas de seres humanos que pedem por caridade que sua saúde seja tratada.

O que devemos fazer? Devemos ficar quietos com uma Justiça que se transforma em injustiça pela demora de sua ação? Devemos apoiar meliantes devedores que levam aos tribunais os que foram seus financiadores? Devemos continuar assistindo pacificamente aos que burlam as leis e o fisco, em detrimento de quem respeita a ordem e paga seus impostos?

Não é à toa que as pesquisas revelam um povo desanimado. A esperança, que foi a marca permanente da gente brasileira, está se tornando uma virtude do passado.

Mas o povo não é bobo. Todos sabem que a pantomima política dos domínios individualistas que nunca se tocaram com o padecimento dos pobres está à cata de bandeiras e adereços que possam ser usados no jogo da demagogia nas eleições que se aproximam.

Por isso, caro leitor, temos nós também que aprontar o nosso arsenal. Como a única arma democrática que possuímos é o voto ­ e que bom que assim seja! ­, está na hora de ir juntando elementos de convicção para, daqui a pouco mais de um ano, fazer escolhas melhores.

É isso mesmo, estou propondo que abramos a campanha eleitoral do nosso lado imediatamente e que passemos a reunir evidências claras sobre a índole e o passado de vida dos que ameaçam se candidatar. Lanço ainda o lema da campanha. Só vote com absoluta certeza. Na dúvida, procure outro candidato. E não desperdice seu voto.

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Varizes sociais
Cristovam Buarque

O Brasil é um país de crianças com varizes nas pernas, criadas por trabalharem carregando excesso de peso em pedreiras, canaviais ou supermercados. Essas veias dilatadas, nas pernas curtas de nossas crianças, são como varizes sociais nas pernas de todo o país.

A doença não atinge apenas as pernas das crianças, mas também o desenvolvimento delas. Impede sua escolaridade, sua formação cívica, seu sentimento de solidariedade, o compromisso com o país onde nasceram. São efeitos que brecam a construção de uma nação eficiente, solidária e próspera, não apenas na produção mas também no conjunto da riqueza material e espiritual que forma um povo.

Se as varizes nas pernas de uma criança chocam, o espanto não é menor quando se observam as caras envelhecidas das mulheres e homens ainda jovens do Nordeste. Gente que produziu menos do que poderia se tivesse a chance de uma alimentação sadia, de uma educação sólida, em uma terra bem distribuída e com a necessária infra-estrutura agrícola.

As pernas de nossas crianças com suas veias destacadas são uma reprodução da cara da nação movida pelo egoísmo de uma elite sem compromisso e respeito pelo povo, pervertendo as prioridades no uso de nossos recursos. E tudo para imitar os padrões de vida e consumo dos ricos do Primeiro Mundo à custa de conviver, ao longo de séculos, com a ineficiência da produção e a injustiça da distribuição.

O Brasil é um país que sofre de varizes.

Os desempregados, com as mãos paradas, quando o povo precisa de água, de saneamento, de escolas, são um exemplo social da mesma doença que atinge as crianças trabalhadoras. Professores desempregados ou com salários ridículos, sem salas de aulas, sem giz, sem equipamentos, porque o governo considera que a dívida com o sistema financeiro tem primazia sobre a dívida com eles, com as crianças brasileiras.

Não só o povo sofre de varizes, no Brasil.

O Estado brasileiro, desfeito, desnacionalizado, privatizado em troca de migalhas desperdiçadas, mostra varizes por toda a sua extensão. Nossos rios são roubados do papel de integradores do território, de irrigadores da alimentação, privatizados para produzir energia que não gerará emprego, não pagará impostos e produzirá bens que os ricos demandam, ou dólares, que os bancos estrangeiros cobram. Nossa terra vive sob o controle de latifundiários especuladores, improdutivos ou apenas exportadores, que pesam sobre o futuro do país, tanto quanto as pernas com varizes de nossas crianças.

As dívidas de todos os tipos, privadas e governamentais, individuais e coletivas, internas e externas, provocando uma hemorragia constante de nossos recursos, são um empecilho criado por décadas de desperdícios, irresponsabilidades e subserviência.

A saúde pública abandonada, deixando as marcas de doenças endêmicas, abolidas na maior parte do planeta, inclusive em países mais pobres do que o Brasil, não deixa o país caminhar, como se sofresse de fortes dores de varizes, iguais àquelas que vi em crianças do Brasil. Aos cidadãos de consciência, as varizes nas pernas das crianças deixam perplexos, descontentes, sem rumo.

Ainda mais grave e a pior de todas as varizes: a dos governantes insensíveis, que não vêem as varizes nas pernas das crianças. Se as enxergam, nada sentem, não as assumem, ainda quando se sintam responsáveis pelas varizes que corroem as veias do mal administrado e viciado sistema financeiro nacional. Essas são as piores varizes, porque provocam todas as outras.

Tivessem nossos governantes o mínimo de sentimento, eles usariam os recursos que dispõem para eliminar o trabalho infantil de quatro milhões de crianças com varizes ou a caminho delas. Dinheiro que, negando às crianças com varizes, eles deram, em uma noite de janeiro, a um único e desconhecido banco que dizia estar para quebrar.

Como se as varizes bancárias, criadas pelo roubo, fossem mais graves do que aquelas nas pernas de nossas crianças, as pernas do futuro.

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O Leitor Escreve

Decisão e Coragem

Sejamos mais ousados e menos medrosos. O ser humano seria uma fortaleza contra o medo se possuísse o ingrediente tão essencial à vida diária a confiança. Ela é tão importante com a água e o ar para a vida humana.

A mensagem do "Gaivota" ("Fernão Capelo Gaivota", Richard Bach)

é fascinante. Ela nos fala do desafiar, correr riscos, dominar as emoções e assim, conquistar a harmonia, o equilíbrio entre o mundo interior e o mundo exterior.

O medo, a terrível "praga negra" nos faz recuar, viver amedrontado, mas com disse alguém - "Não sinta medo, para não atrair críticas" e a Bíblia completa: "O imprudente dá crédito dá a tudo o que se lhe diz; o cauteloso considera os seus passos" (Prov14,15).

A confiança na colheita é o que conduz o humilde lavrador a cavar a terra e semeá-la. A confiança em si mesmo é o que leva o acrobata a dar saltos no espaço e alcançar o trapézio.

É preciso correr risco porque o sofrimento é inevitável, faz parte da natureza humana. Correr risco ou não, a dor existe. É fundamental sonhar, mas é vital concretiza-lo.

O "Gaivota" desafiou a sua própria natureza para concretizar o sonho idealizado. Fechou os olhos para saborear, regozijar-se com a sua ação desafiante: voou, voou até atingir o inatingível, viver a vida na dimensão máxima, com a máxima intensidade, mesmo arriscando a própria vida. Ele, o "Gaivota", afirma que podemos "voar, subtrair-nos à ignorância; podemos encontrar-nos com criaturas excelentes, inteligentes e hábeis. Podemos ser livres!"

Temos que nos submeter a uma série de provas, não só as do libertar-se das próprias limitações como também ser julgado pelo próprio grupo (espécie). Tem que se fazer a escolha: ser banido da comunidade ou, deixa-la para viver uma vida "solitária nos Penhascos Longínquos."

Temos que traçar um propósito mais elevado para a nossa vida.

Os "caminhos" são os mais diversos. Devemos percorrê-los; nem sempre nos abastecem, nem sempre nos conduzem à realização do sonho acalentado na infância, adolescência.

É, a vida é de lutas, treinamentos, vôos constantes e, principalmente de grande esforço para se viver nesta terra dos viventes.

O "Gaivota" sentiu-se cansado no paraíso estabelecido e daí? Partiu e chegou até outras gaivotas, as quais, como ele, lutavam contra as próprias limitações. tinham em mente que "o mais importante na vida era olhar em frente e alcançar a perfeição naquilo que mais gostavam de fazer: voar, e para isso, o experimente, o percorrer longos caminhos, viver o momento presente tendo em mente que a busca da perfeição deve ser incansável e o paraíso não é um lugar nem um tempo. O paraíso é ..."

E mais, é preciso libertar o corpo físico das coisas terrenas, e acreditar que cada um de nós foi feito à imagem e semelhança de um Deus perfeito e ilimitado. Devemos nos conscientizar do trabalhar o próprio controle para adquirir o controle dos descontroles e que , o viver é uma constante aprendizagem. As chibatas, os empurrões existem, mas o importante é não permanecer no chão; levantar, continuar trabalhando no amor, treinado os exercícios de bondade, buscar compreender a natureza do amor, amando, pois "vê mais longe quem voa mais alto."

Eulalia Moura Duarte

Cruzeiro do Oeste

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