Umuarama Ilustrado - Política e Opinião
Política e Opinião Umuarama, Quarta-feira, 25 de Outubro de 2000

Charge

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O salário mínimo e o Orçamento
O principal problema do déficit público no Brasil não são os gastos do governo com políticas sociais, mas o custo financeiro da dívida
Por José Genoino

A proposta orçamentária do governo para o próximo ano prevê reajuste de apenas R$ 8 para o salário mínimo. Dos atuais R$ 151, o mínimo passaria para R$ 159. Trata-se de aumento ridículo. O PT, junto com outros partidos, defende um mínimo equivalente a US$ 100, o que daria algo em torno de R$ 185. A bancada do PT na Câmara exige negociação rápida na definição de novo índice de aumento. Caso contrário, vai fazer valer sua pressão legítima, usando o instrumento de obstrução das votações para a aprovação de créditos suplementares para gastos do governo. O PT dispõe-se até mesmo a obstruir a aprovação do Orçamento da União para o próximo ano se uma saída digna para o salário mínimo não for encontrada.
Não se trata de posição de intransigência da bancada do partido, mas do exercício do direito de defesa dos interesses das parcelas mais sofridas da população brasileira. Uma família de duas ou três pessoas, que vive com um salário mínimo, enquadra-se nas condições de pobreza absoluta. Mesmo uma pessoa que vive com um salário mínimo dispõe de pouco mais de US$ 2 diários, o que caracteriza situação de extrema pobreza. Dados do Ministério do Trabalho indicam que, dos 71,7 milhões de pessoas que compõem a população economicamente ativa, 14,4 milhões recebem até um salário mínimo, totalizando 20%. Estão incluídos aí trabalhadores do setor público e do setor privado, do setor informal, autônomos, empregadas domésticas etc.
A elevação do salário mínimo deve ser concebida como importante medida de política social. E trata-se de uma política social eficaz porque, nesse caso, o dinheiro chega ao bolso do pobre. Recente estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revela que a maior parte dos recursos destinados às políticas sociais terminam por não beneficiar quem realmente precisa deles. Segundo o estudo, apenas 13% dos gastos sociais chegam aos 20% da população mais pobre. Ou seja, quem recebe a maior parte do dinheiro público dos gastos sociais não é quem precisa. Assim, aumento de salário mínimo, renda mínima, bolsa-escola etc. são programas sociais mais eficazes porque o dinheiro é efetivamente recebido pelo pobre.
Dados do Banco Mundial indicam que o Brasil tem uma taxa de indigência (pessoas que vivem com menos de R$ 65 por mês) de 22,6%. Outra pesquisa do Ipea divulgada nas últimas semanas revela que, de 1998 a 1999, a população pobre no Brasil cresceu de 33,4% para 34,9%. Ao propor um aumento de apenas R$ 8, o governo vai na contramão da necessidade de atacar o problema da pobreza no Brasil. Essa exigência não expressa mero discurso oposicionista do PT. É um clamor perceptível nas ruas, nas favelas, nos índices de violência, no aumento das epidemias e nas mortes prematuras de homens, mulheres e crianças pobres.
A verdade é que, hoje, fomes coletivas e pobreza são fabricadas artificialmente nos países em desenvolvimento devido às perdas impostas por uma globalização perversa e devido às imposições de programas econômicos pelo FMI, que geram enormes custos sociais. Ninguém nega a necessidade de um ajuste fiscal. O custo do ajuste, no entanto, é jogado, pela equipe econômica do governo, sobre os mais pobres, com o corte de verbas sociais, com a depressão dos salários, com o desemprego, com o aumento do número e das alíquotas de impostos lineares (consumo, CPMF etc.), e com o crescimento das isenções e incentivos fiscais às grandes corporações empresariais e financeiras.
O principal problema do déficit público no Brasil não são os gastos do governo com políticas sociais, mas o custo financeiro da dívida. O ajuste fiscal imposto pelo FMI, a rigor, representa transferência de dinheiro de toda a sociedade, mas principalmente dos setores de média e baixa rendas, para os cofres dos grandes bancos nacionais e internacionais.
É preciso entender que, em se tratando de dinheiro, não há o milagre da multiplicação das notas. Quando não se produz riqueza real, o que uns ganham outros perdem. Quando o Banco Central perdeu oito, dez, quinze bilhões de dólares com a desvalorização do real, significa que houve transferência de dinheiro dos brasileiros para os especuladores de moedas que exploram as variações cambiais. Impor mais um sacrifício aos pobres brasileiros com um aumento medíocre do salário mínimo é algo inaceitável. Recursos para cobrir os gastos públicos acarretados pelo aumento do mínimo existem. Basta apenas ter bom senso, consciência do drama da pobreza e definir o social como prioridade da política pública.
José Genoino é deputado pelo PT de São Paulo
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Os militares e seus intérpretes
Mesmo para os que se reconciliam com os militares ‘‘equivocados em 64’’, resta indisfarçável acrimônia no trato com a farda
Por Jarbas Passarinho

Parte da imprensa deu destaque a suposta crise militar que teria tido como pivô o comandante do Exército, general Gleuber Vieira, que não é só um chefe altamente respeitado por sua competência e integridade, mas um líder que comanda pelo exemplo. Não tenho a menor informação a respeito da procedência ou não da notícia publicada na mídia. Acompanho, isto sim, o que têm escrito os articulistas a respeito. Há os que, até há pouco tempo, olhavam os militares com grande reserva, senão com hostilidade, e hoje lhes fazem merecidos elogios. Antes, atribuíam-lhes incompatibilidade com a obediência ao poder civil e, conseqüentemente, vocação para os golpes de Estado, esquecidos por conveniência de que, com grande freqüência, o apelo para o golpe vem de fora, notadamente dos políticos que o marechal Castelo Branco chamou de ‘‘vivandeiras de porta dos quartéis’’.
Se analisarmos com isenção as intervenções militares ocorridas na República, daremos razão ao que escreveu lucidamente João Camilo de Oliveira Torres em seu livro As Forças Armadas como Forças Políticas: ‘‘Naturalmente muitos as criticam geralmente quando estão entre as vítimas. O mal de todas as intervenções militares no Brasil reside em que são aplaudidas ou combatidas conforme o destinatário. Os discursos que estigmatizaram, ontem, tal atentado à Constituição, poderiam servir, apenas mudando-se o nome das pessoas, a outros indivíduos do partido contrário, na intervenção seguinte’’.
Tome-se a figura de Getúlio Vargas como exemplo. Em 1930, foi ele o destinatário da Revolução, em nome dos ideais da Aliança Liberal, que cooptara o ‘‘tenentismo’’, buscara sem êxito a adesão de Prestes e amparou-se no então tenente-coronel Góes Monteiro. Os generais não foram figurantes. Já em 32, com raras exceções como a de Klinger, ficaram ao lado de Getúlio contra o movimento constitucionalista de São Paulo. Novamente o destinatário foi Getúlio, mas não mais em nome de ideais libertários. Ele mesmo seria outra vez o destinatário do autogolpe de 37, utilizando as Forças Armadas ainda marcadas pelas cicatrizes da sublevação comunista de 35, instituindo-se o regime fascista do Estado Novo.
Os democratas, especialmente os ligados à candidatura de José Américo de Almeida, passaram a ter horror do ditador e naturalmente responsabilizaram as Forças Armadas pelo retrocesso. Mas em 1945, com o retorno da FEB, que combatera ditaduras totalitárias, as mesmas Forças Armadas o depuseram. Se até então os getulistas aplaudiam as intervenções armadas, agora elas eram acusadas de reacionárias, mas os democratas palmearam os generais. Nesse vai-e-vem , elas vêm sendo ‘‘aplaudidas ou combatidas conforme o destinatário’’, consoante a análise de João Camilo, na seqüência de 1954 a 1964, quando pela primeira vez assumiram o poder, que devolveram aos políticos civis com a eleição indireta de Tancredo Neves e a posse de José Sarney.
O interessante é que um dos articulistas, dos que as combateram, defende-as agora com a ressalva de que ‘‘se equivocaram em 64’’. Outro, da mesma linha ideológica, reclama como justa a melhoria salarial dos militares, agora que ‘‘se tornaram democraticamente confiáveis’’. Mas ainda combate o que considera privilégios. Exemplifica: ‘‘Ganhar adicional porque aprendeu inglês’’. Certamente foi muito mal informado, mais ainda quando se volta contra ‘‘o absurdo de pretenderem destinar a filhas solteiras a pensão em caso de morte da esposa’’. Já nem falo dessa bobagem de pretender que os militares ganhem salário adicional porque ‘‘aprenderam inglês’’. Detenho-me no caso da pensão. Desde o primeiro posto da carreira, o militar desconta de seus vencimentos um valor para a pensão. Não se trata de fundo, como os das estatais, que recebem contrapartida da União, pois nada recebe da União. É um dinheiro que se acumula, visando a deixar a viúva amparada modestamente. Dinheiro seu, do militar. Se perde a esposa, que seria a beneficiária natural, por que razão não deveria dispor do valor resultante das deduções de seu salário? Pois isso é considerado um iníquo privilégio! E se essa contribuição, por dezenas e dezenas de anos a fio, tivesse sido colocada em uma caderneta de poupança? Ou num plano de pecúlio? Quanto valeria?
A União só veio a contribuir para esse fundo quando o legislador decidiu destinar pensão a quem nunca contribuiu. É o caso, por exemplo, dos ex-combatentes, que não eram militares de carreira e que, depois da guerra, buscaram profissão civil e se encontravam em dificuldade. Na Constituinte, nós os contemplamos com uma pensão equivalente ao vencimento de um segundo-tenente. Aí, sim, coube ao Tesouro cobrir a despesa decorrente. Mas, ao fim de cinqüenta anos de contribuição — isso ocorre com muitos oficiais viúvos — quanto valeria o total se devidamente corrigido? E por que seria privilégio odiento que pudesse destiná-lo até a quem o desejasse, quanto mais a filhas solteiras?
Como se vê, mesmo para os que se reconciliam com os militares ‘‘equivocados em 64’’, resta indisfarçável acrimônia no trato com a farda.
Jarbas Passarinho, presidente da Fundação Milton Campos, foi ministro de Estado, governador e senador

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